terça-feira, 27 de março de 2012

Invento o Cais

Eu inventei você. Seus gostos, seus jeitos, seus humores. Só teu corpo eu não inventei.
Ele era meu reino. E sobre ele, eu exercia todo o poder que eu não tinha.
Inventei até que você me amava. Inventava todo dia. Você dizendo pra mim, com todas as letras, e com todo o carinho que alguém possa querer: Eu te amo. Você dizia todo dia.

E eu acreditei no que inventara. Você era meu Hércules, meu Aquiles, meu Mr. Darcy, meu Romeu, ou qualquer outro entre tantos inventados. Era aquilo tudo que eu sempre sonhei.

Como boa lusitana que sou, inventei o mar pra você navegar. E um cais. No qual te esperaria todos os dias, com o peito cheio de amores. Todos seus. Inventados.
Quando você saia pro mar, eu te inventava um pouco mais. Seus cabelos voltavam mais compridos. Sua barba, maior. Seus olhos, mais escuros.

E nos teus beijos, mais quentes do que aquele sol que me queimava a pele, eu morria de tanto inventar. Bastava ter você. E meus sonhos. Teus abraços e sua mão esquerda que me desenhava ondas dos mares por onde navegavas.

No dia que minha imaginação falhou. Você não voltou do mar. Eu tentava lembrar dos teus lábios, do teu cheiro. Mas não adiantava. Eu tinha apagado você. Da mesma forma, simples e apaixonada como havia te inventado.

Nosso Cais continuava lá. E a água brilhante e os pássaros coloriam a paisagem e cantavam uma melodia que eu não conseguia entender. Era teu nome. Mas eu, não consigo lembrar.

domingo, 4 de março de 2012

Agonia

Era de manhã e tudo era branco. Ele sentou ao meu lado.
Não disse uma palavra, nem virou os olhos a ponto de me olhar.
Ele fitava o nada. E eu o olhava com um afeto que não se tem por estranhos.
Esbocei uma palavra, afim de chamar sua atenção. Mas ele continuava imóvel,
salvo pela sua respiração que fazia mover o nada a sua frente.

Eu continuava a olhar os olhos, os cabelos, a nuca, a boca e meu afeto crescia.
Ele era branco, alto e tinha grandes mãos. A barba loira e os olhos pretos e secos.
O tempo não passava e o espaço não existia, mas a cor mudara. Tudo era azul.

Com algumas gotas de saliva que saiam do seu silêncio, ele matou sua sede.
Parado por uma eternidade, ou uma vida curta. Ele permanecia sem me olhar.
A coragem de falar vinha à ponta da minha língua, mas ia embora a cada inspiração dele.
Eu quis desistir e deixa-lo. Mas pra onde eu iria?

Mudei de lado, para o lado que não existia. Talvez o esquerdo, não importa.
Mudei de lado como se não me movesse. Ele nem piscou.
Como uma súbita vontade de quem não pensa nas consequências de nada, estalei os dedos.
E como se nada tivesse acontecido, ele permaneceu.

Eu me perguntava porque ele não ia embora. Me perguntava se eu estava no lugar errado.
Se eu deveria sair. Tão retórica quanto a minha pergunta foi o silêncio dele. Cheio de voltas que não chegava a lugar algum.
E tudo ficou vermelho.

Eu decidir levantar e ir a qualquer lugar que não existisse ele. Mesmo que o nada ainda fosse maior e a cor feia.
Andei, andei...
E tudo ficou preto.

E o silêncio ganhou um nome.
Saudade.