segunda-feira, 2 de abril de 2012

Passos

O passo era agitado, como se eles quisessem correr, mas não podiam. Andavam tortos, sujos, fedidos. E eu ousei a parar para olha-los. Eram meninos, meninas.
Eu imaginei que eles estivessem saindo da escola. Mas não, não estavam vestidos como quem sai da escola. Alguns sequer vestidos estavam. Eram trapos que os cobriam. Andavam. Como uma cena conhecida de um tempo recente que tentamos nos esquecer.

Era verdade que eles não me ignoraram ali. E como ninguém os olhavam, minha presença, minha observação causou inquietude naqueles passos. Eles não queriam que eu olhasse? Eles tinha vergonha? De que? Das manchas de poeira em suas caras? Dos rasgos em suas roupas?

Eu quis perguntar. E antes de balbuciar qualquer palavra que fosse, um menino parou.
Olhou-me nos olhos. Era um olhar sereno, de quem não esconde segredo. Encarei-o de volta e ele sorriu. Continuou andando e eu o segui.
Menino! Menino! - gritei. E ele continuou.
As ruas do Rio de Janeiro estavam tomadas de crianças que andavam rápido mas não corriam. E ninguém parava pra olhar.

O mais curioso, é que de fato, aquilo não tinha nada de anormal, mas pra mim, foi um momento único. Não sei explicar ao certo o porquê. Mas ali, naquela rua cheia de carros e gente, meninos e meninas andavam como não se deve andar. Depressa e sem correr.

Me perguntei se eram meninos de rua. Deviam ser. Talvez estivessem indo a algum lugar pedir dinheiro e comida, ou guardar carros. Ou será que eram apenas crianças sujas de tanto brincar?
Quem seriam seus pais? Quem os deixou sair?

Foi então, que bem em frente ao Parque Lage eles atravessaram a rua e entraram.
A minha surpresa não podia ser maior. Ali, enconstada numa árvore, estava uma senhorinha de 70 e tantos anos. Cabelos brancos, vestido de algodão, diadema, sandálias de couro. E várias bolsas de feira.

As crianças corriam e gritavam: Tia Lúcia! Tia Lúcia!
Um menino chegou primeiro e arrancou um dos sorrisos mais lindo que eu já vi. Ganhou um abraço bem apertado. E de longe eu consegui ouvir a voz meio rouca da senhora: Que saudades, meu filho. Então, todas as crianças foram chegando e a abraçando. Umas ganhavam beijos na testa, outras eram chamadas atenção por não terem tomado banho.

A senhora me viu. E sorriu. Fez um sinal pra eu chegar mais perto.
Como quem sabia exatamente o que eu andava me perguntando, ela disse: Essas crianças são muito especiais. E você já vai saber porque.

De dentro das sacolas de feira, surgiram diversos instrumentos. Pandeiros, caracas, flautas doces, gaitas, tambores e chocalhos.

Como se Deus tivesse mandado 15 arcanjos para tocar A Paixão Segundo São Mateus, de Bach, aquela música chegou aos meus ouvidos.

Foi então que eu entendi. Que aquilo estava no planos das ideias. Que nada daquilo de fato havia acontecido. Que era transcendental. E só os muito sortudos poderiam escutar. Uma lágrima caiu - Eu disse - falou a senhora com um orgulho que só as mães tem.

Aquilo que só se pode ver quando os olhos enxergam além do óbvio é o que dá sentido a nossa existência. O novo já existia, mas meus olhos estavam acostumados a olhar para as mesmas coisas. E foi por isso que eu entendi. Aquilo não estava acontecendo em outro lugar, senão dentro de mim. Eram os arcanjos que Deus tinha enviado para cantar aquilo que eu precisava saber.

Eu poderia ter enxergado apenas meninos de rua.

terça-feira, 27 de março de 2012

Invento o Cais

Eu inventei você. Seus gostos, seus jeitos, seus humores. Só teu corpo eu não inventei.
Ele era meu reino. E sobre ele, eu exercia todo o poder que eu não tinha.
Inventei até que você me amava. Inventava todo dia. Você dizendo pra mim, com todas as letras, e com todo o carinho que alguém possa querer: Eu te amo. Você dizia todo dia.

E eu acreditei no que inventara. Você era meu Hércules, meu Aquiles, meu Mr. Darcy, meu Romeu, ou qualquer outro entre tantos inventados. Era aquilo tudo que eu sempre sonhei.

Como boa lusitana que sou, inventei o mar pra você navegar. E um cais. No qual te esperaria todos os dias, com o peito cheio de amores. Todos seus. Inventados.
Quando você saia pro mar, eu te inventava um pouco mais. Seus cabelos voltavam mais compridos. Sua barba, maior. Seus olhos, mais escuros.

E nos teus beijos, mais quentes do que aquele sol que me queimava a pele, eu morria de tanto inventar. Bastava ter você. E meus sonhos. Teus abraços e sua mão esquerda que me desenhava ondas dos mares por onde navegavas.

No dia que minha imaginação falhou. Você não voltou do mar. Eu tentava lembrar dos teus lábios, do teu cheiro. Mas não adiantava. Eu tinha apagado você. Da mesma forma, simples e apaixonada como havia te inventado.

Nosso Cais continuava lá. E a água brilhante e os pássaros coloriam a paisagem e cantavam uma melodia que eu não conseguia entender. Era teu nome. Mas eu, não consigo lembrar.

domingo, 4 de março de 2012

Agonia

Era de manhã e tudo era branco. Ele sentou ao meu lado.
Não disse uma palavra, nem virou os olhos a ponto de me olhar.
Ele fitava o nada. E eu o olhava com um afeto que não se tem por estranhos.
Esbocei uma palavra, afim de chamar sua atenção. Mas ele continuava imóvel,
salvo pela sua respiração que fazia mover o nada a sua frente.

Eu continuava a olhar os olhos, os cabelos, a nuca, a boca e meu afeto crescia.
Ele era branco, alto e tinha grandes mãos. A barba loira e os olhos pretos e secos.
O tempo não passava e o espaço não existia, mas a cor mudara. Tudo era azul.

Com algumas gotas de saliva que saiam do seu silêncio, ele matou sua sede.
Parado por uma eternidade, ou uma vida curta. Ele permanecia sem me olhar.
A coragem de falar vinha à ponta da minha língua, mas ia embora a cada inspiração dele.
Eu quis desistir e deixa-lo. Mas pra onde eu iria?

Mudei de lado, para o lado que não existia. Talvez o esquerdo, não importa.
Mudei de lado como se não me movesse. Ele nem piscou.
Como uma súbita vontade de quem não pensa nas consequências de nada, estalei os dedos.
E como se nada tivesse acontecido, ele permaneceu.

Eu me perguntava porque ele não ia embora. Me perguntava se eu estava no lugar errado.
Se eu deveria sair. Tão retórica quanto a minha pergunta foi o silêncio dele. Cheio de voltas que não chegava a lugar algum.
E tudo ficou vermelho.

Eu decidir levantar e ir a qualquer lugar que não existisse ele. Mesmo que o nada ainda fosse maior e a cor feia.
Andei, andei...
E tudo ficou preto.

E o silêncio ganhou um nome.
Saudade.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fado Português



Me falaram que o Fado cantava a tristeza da gente. Comigo não. O fado também canta minha alegria.
Alegria de ver horizontes distantes e rios de cores celestes.
A lindeza de uma terra que de terra tem pouco, mas muito tem de mar. E mar... ah, o mar me conhece.
As guitarras choram meus amores. As violas dançam minhas alegrias mais simples.
E a voz, a voz portuguesa que lamenta, a mim ela a agradece.
Quando o Fado nasceu trouxe ao mundo um lamento que dói na alma.
Mas a única dor que eu sinto hoje é a falta do fado.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Acordar e dormir, isso é relevante.

Ainda é escuro e um amigo dorme ao lado. É provável que ainda exista um resquício de sonho em mim. Do contrário, não pensaria tal coisa.

O amigo dorme e sonha. Tal como eu, há algumas horas. E não deveria fazer sentido, porque onde estamos, não deveríamos ter dormido. Pra que dormir? A vida acordada é bem mais real do que os sonhos que crio e que inevitavelmente me aprisionam o dia inteiro. Aquilo que é irreal toma conta de mim, meu irreal é mais bonito.

Talvez seja por estar tão longe da realidade que eu me permita não sonhar. Ou sonhar acordada fingindo ser realidade aquilo que sonho. Ou talvez eu mesma ainda não tenha acordado. E seja a mesma coisa.

Agora o amigo acorda. E me pergunta se ainda estou dormindo. Como se eu não soubesse que nem dormindo, nem acordada estou. Eu estou a sonhar. E transfigurando a realidade. Por que diabos eu ficaria acordada ou dormindo, se sonhar é mais legal?
Ele mesmo ainda não decidiu se acorda ou dorme, se sonha ou vive. Muito menos eu. Ainda não decidi e nem o farei, ficarei aqui, naquele momento entre o acordado e o dormindo onde que muitas pessoas pensam que estão caindo. Eu ficarei ali, sem dormir. Enquanto meu amigo não levanta. E quando tal acontecer, eu continuarei ali. A andar pelas ruas da minha não realidade.

E não faz o menor sentido.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Marina Morena



Tua luz se irradia negra e brilhante. Por onde passa, ela carrega consigo o teu sorriso.
O teu cabelo comprado.
A tua alma, imensurável, como todas as almas que não cabem num corpo.
O teu corpo, desenhado por Deus no último dia da criação.

Tu também levas consigo a minha alma. E tudo o que nela tu cativaste.
Leva o meu gosto pela vida. E pela noite.
Pela tua cor e tudo o que ela representa. Pela tua música.
Tu me fez, quando nada mais existia.
E o fez sem perceber.

Dá-me tua mão. Pra vida. E me ilumina.






Dedicado à minha musa: Marina Pereira.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Cartografia d'alma.

Da minha carne sobram poucas partes pra você desvendar. Meus mapas foram desenhados há algum tempo. Mas você pode se guiar por eles. Já minh'alma, nesta sim, você será meu Colombo! Meu infante, meu bandeirante, meu descobridor.

A alma cá dentro anseia por teus desenhos, por teu lápis, teu papel, teu pincel. Desenha minha alma.

Nenhuma curva da minha carne será tão bem retratada por qualquer outro do que os ventos sutis que minha alma fará no teu traço.

Ah, teu traço. Suave, firme, perfeito. Ah, teu traço!

Espera minha alma por tua inspiração. Vem.